segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Os salvadores de carpas

Foi depois que arrumamos tudo para evitar que o mundo se desmanchasse de novo sob nossos pés. Que nós não queriamos mais mazelas nem dores, a gente só queria um tempo, onde nada nos incomodasse e ainda fossemos tratados como reis. A dona de tudo, tudo viu, cuidou de nós. E continuamos a caminhar muito em silêncio, cada um com seu ritual matinal, de mascaração. E estavam lá, as carpas morrendo afogadas.Os caramelos ficaram carentes e desataram a pedir um abraço, uma companhia. Então fiquei ali.  Eu agi como insensível que sou ao sofrimento das carpas, mas um de nós viu logo que algumas carpas ainda estava vivas e foi cumprir sua missão de preservar coisas belas. Fiquei observando meu amigo pegar uma carpa, colocar num balde, descer uma ladeira, atravessar uma ponte, jogar a carpa na cachoeira e ficar prestando atenção se ela sobrevivia. Depois ele subiu e fez isso de novo, diversas vezes, sem ajuda. Eu poderia ter ajudado, mas eu não quis. Eu fiquei observando um bolinho de flores azuis no canto e pensando: ora, não somos capazes de tudo mesmo?

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Amorzinho

 Acabei de ver Amorzinho, um conto de Tchekhov, no Glauce Rocha.  Eu sou Olenka. Eu necessito de um objeto de amor para viver.  Fiquei emocionada de ver o Lolô, um dos meus mestres queridos, lá em cima, vivendo vários personagens, criança e velha, não sei, ali em cima não existe idade, não existe sexo, o ator não tem idade. Acho que o mais importante dessa peça, dentre muita coisa, é que ela me tocou. E não é pra isso que teatro serve? Para nos tocar? Toque em alguém e cumprirá sua função. Até porque do texto do Tchekhov você sempre espera coisas bonitas, incompletas e com aquela cara dele em algum lugar que não sei explicar direito. Eu sou Olenka, eu rejuvenesço quando amo, fico radiante e o objeto do meu amor é tudo que interessa. E quando ele se vai, eu me sento numa cadeira olhando as estrelas e não consigo dormir como as galinhas. Eu sou Olenka, a neve é só a neve quando o amor não está ali. E não é assim com cada um de nós? Lindo gente, lindo.

Peripécia do dia: lidar com o chefe da empresa de advogados mantendo a longanimidade.
Poesia do dia: no palco do Glauce Rocha, por todos os lados.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Hoje


O sol está claro e forte lá fora, espero. Podemos nos curar de uma dor e voltar a ela sem consequências? Estudei que astrologicamente, estou passando pelo portal cinco e após meu aniversário entrarei no portal sete. O que significa mais ou menos que vou entrar numa caverna, de encontro com Deus. Como não sou nem leão, nem virgem, sou uma coisa cúspide, bem posso dizer que durante quase toda a vida fui muito mais leonina que qualquer outra coisa, mas de uns tempos pra cá quando leio meu horoscopo de leão, não tem nada a ver e quando leio virgem fico: ah tá, é mais por aqui hoje. Bom, o portal cinco é o portal das mudanças, e eu me mudei muito ultimamente, mas agora estou morando sozinha e essa instabilidade acabou ( pelo menos por algum tempo). É engraçado como a intensidade das coisas não tem realmente a ver com prazos. Você pode passar anos com uma pessoa e ela te atingir, e ficar pouco tempo com outra e ser arrebatada. Bom, talvez não completamente porque estou exercendo o autocontrole como posso. Para não enlouquecer. Sempre tive medo de ficar como uma vizinha que tinha quando era criança, que enlouqueceu de amor. Tantas dores no mundo, tantas mazelas piores, nem sei se meu caso clínico de amor se trata de uma mazela, mas acho que tudo que te deixa triste não deixa de ser uma mazela dos infernos. "Eu quero a sorte de um amor tranquilo, com sabor de fruta mordida". Mais que saudade do amor, sinto saudade de companhia. E acho que sim, a idade muda a gente porque não tenho mais vontade de ficar, depois que vi como é ter alguém que te ama e te respeita, não aceito menos. Muitas coisas porém não são menos, são muito, mas
“muito pra mim é tão pouco, e pouco eu não quero mais”. E tenho dito.
Não fiz nenhuma peripécia hoje, quem dirá uma poesia.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Um gato chamado Napoleão

Sentei num banco esperando o ônibus, por volta das 22h, numa rua movimentada de Fortaleza. Antes de sentar, vi um gato preto e branco perto do ponto de ônibus. Era grande, gordo, um pouco sujo, mas bem podia ser o Napoleão. Então pensei, vou sentar, se ele vier sentar aqui do meu lado, é o Napoleão. O gato veio e sentou. Ficamos em silêncio por um tempo, Napoleão e eu. Olhei com atenção, mas sem ser muito direta pra ver o rabo e as patas dele. Napoleão tinha um ponto branco na ponta do rabo, tinha um bigode meio Chaplin e nas patas dianteiras, duas luvas, uma comprida e outra abaixada. Fiquei fazendo carinho nele e me explicando:
- Foi isso, tive que ir, entendo você ter ido embora também, mas ainda não posso te levar. Não sei se entenderá isso e provavelmente não, mas um dia eu volto, e se você ainda estiver vivo, quiser ficar comigo, eu ficarei feliz. Entenda, é a vida, você sabe bem.
Dito isso, subi no ônibus sem olhar para trás. Durante toda a conversa ele não pareceu pensar que eu o levaria, mas os olhos tristes de um gato, ninguém aguenta .

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A saudade do primeiro amor

Ele já passou faz tanto tempo e no entanto eu escuto a voz mansa e pausada dele no meu cangote. Parece que em algum lugar no tempo eu sempre fiquei com ele. Claro, a historia não é assim e ele já é outro, mas em algum lugar, é sempre Natal com brisa e ele muito apaixonado. Nem sei dizer a hora mais linda dele. Talvez no dia que o conheci porque foi o amor. Mas depois, o amor sempre será lindo e mesmo sem grana, dentro de um ônibus pra ver o mar, eu o amava descompassadamente. Nunca mesmo vou entender como ele deixou de me amar, mesmo olhando nos olhos do filho dele, mesmo olhando nos olhos dele e não vendo nada daquilo, eu prefiro estar com ele num clube qualquer, depois de um show, conhecendo o sexo pela primeira vez, cheia de amor, inundada de tanto amor, carregada nos braços e cheirada, beijada, desejada. Eu sei que o tempo passou, eu sei que somos outros, mas uma das maiores belezas da vida é o amor que sentimos quando somos muito jovens e cheios de tudo. Então eu fecho os olhos, entro no quarto pequeno, olho pro teto e tudo está bem, ele sussurra uma música, mas só sussurra pois é muito novo e não tem segurança pra cantar, eu sorrio por dentro, ele me abraça forte e nunca mais dormimos, estamos sempre fazendo amor.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Passe livre

Meu amor não gosta de perfis na internet, nem de nada que dê muitas informações sobre a vida dele. Ele acha que se houver uma guerra, pelo facebook eles vão saber tudo da tua vida e podem te matar e a todos os teus amigos. Considerando o que já aconteceu nas guerras, é bem possível. Eu estou cada vez mais distante da visibilidade que buscava. Deve ser fase, estou em casulo. Hoje me peguei sendo agressiva mesmo sem ter intenção. Gostaria de evitar muitas coisas. Estou com passe livre de poesia. Não tem poesia em mim agora, só se for escondida. Tudo está absolutamente normal. Acho que não curto ser normal mesmo que machuque menos. Meu amor tem uma teoria de que todo mundo sofre de uma loucura e finge que não é louco para os outros. Eu finjo que não presto atenção mas escuto. Mas essa é só uma das minhas loucuras. Agradeço pelo meu amor. E por ter uma casa. Sinto saudades de casa. Nunca tive paciência de aprender a tocar um instrumento. Nem de assistir às aulas de direito civil. Nem de esperar me formar e passar num concurso foda pra partir pros meus sonhos.  Nunca tive paciência pra nada. Estou buscando uma proximidade meio narcisista comigo mesma pós alvoroços entre sucessos e derrotas. As vezes fico me perguntando se as pessoas que se sentem bem sucedidas sentem vazios do nada. Por que o ser humano vem com vazios que nada preenche? Eu estou com um escoçês hospedado aqui (nunca nem achei que ia conhecer um escoçês na vida). Acho que estou muito internacional, mesmo sem falar nem francês, nem inglês que preste. Mas ainda assim foi o que consegui, sem dramas. Hoje estou normal, sem dramas. Acho que as mentiras simplesmente não vieram na minha bolsinha. Queria um cigarro, mas parei de fumar.

Hoje só ouvindo Alanis. Acho que sempre vou gostar de música velha. Pra quem quiser...

http://www.youtube.com/watch?v=hGjaaQAvSTA&feature=BF&list=MLGxdCwVVULXcZgTI8_AUbVYhyOrLSlbDl&index=13

domingo, 2 de janeiro de 2011

A vida

Eu mudei esse ano várias vezes e continuo. Percebo que quando estou feliz não tenho nada a dizer. Mas insisto porque amo os poetas que trazem alegria pro seu coração, que "te levam a Deus". Gostei de ver a posse da Dilma. Ela não me pareceu deslumbrada. E não posso deixar de dizer que acho mesmo muito bom que uma mulher vire presidente depois de milhões de anos nesse mundo. E que só isso já é uma quebra de padrões. Eu amo a história da mulher. Eu saí do orkut porque tinha um cara me mandando propaganda diariamente e eu nao queria mais ver a cara dele (nem virtualmente) e agora estou com saudade de alguns amigos que só me contactava por lá. Que me liguem, que me liguem amigos, que o ano de 2010 foi só de emoção e nos 25 minutos finais a coisa ficou quente. Bom pelo menos era a Daniela Mercury quem estava cantando, e o fogos foram lindos mesmo, coisa de cinema. Acho que ainda não fiz nenhuma peripécia em 2011 mas a Dilma já fez, com certeza.

 E a poesia, vamos juntas, com coragem!

“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim:
esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
O que Deus quer ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais,
no meio da alegria, a ainda mais alegre ainda no meio da tristeza!
Só assim de repente, na horinha em que se quer, de propósito – por coragem.”
(Guimarães Rosa)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Disponibilidade

De uma disponibilidade incrível. Querendo criar algo que não vem de jeito nenhum. Com as costas cansadas, os dedos pregados um num outro feito uma pata. Nada aconteceu. Não passei, tenho dívidas negociáveis com uma terceirizada. Também estou devendo à operadora de telefone. Meus chegues sendo devolvidos, o café é italiano. Tenho um roteiro, onde ele está? Solta meu cérebro, solta pra mim. Nada. Pensando seriamente em voltar a dar um pouco de trabalho em casa, porque na casa dos outros já está ficando complicado. Sonhando com pessoas amadas que há muito não fazem mais parte do contexto. Não há o que fazer e tudo me dá preguiça. E o amor? Anda em rotina, entorpecido em diárias. Um acolhedor cubículo 2 x 2 serve para me confrontar imediatamente com a realidade, eu, que sempre preferi a fantasia.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Edileusa Cotonete e Maria Diocleciana se encontram

Edileusa Cotonete gosta de ler com a geladeira aberta. Ela vai nua, puxa uma preguiçosa e deita na frente da geladeira aberta. Gosta de ler quadrinhos Marvel e usa uns óculos imensos para onde quer que vá, pois tem um certo asco da sociedade. Edileusa não teve peitos com facilidade não querida, ela pagou cada miligrama de silicone e quer mantê-los sob a proteção do ar refrigerado. Mas ela hoje teve que esquecer seu momento de diva na geladeira porque sabe que aquela manca horrorosa vai aparecer a qualquer momento pra questioná-la e ai ! Hoje não, Edileusa não está afim. Quando a porta se abriu e veio aquele vento Edileusa Cotonete ficou observando divertida enquanto Maria Diocleciana esperava sem nem avançar pela porta. Claro, que lindo, essa manca ainda por cima quer se passar por esperta. Maria Diocleciana calmamente pegou seus ratos de estimação com rodas e deu um sinal com a língua. Os ratos entraram pela porta de Edileusa Cotonete que obviamente tem horror a bichos peludos de olhos vermelhos com rabos de couro e doenças cardiovasculares.
- Alto lá. Tira esses ratos daqui Maria Diocleciana!
- Então você precisa aparecer aqui fora pra me responder.
- Não saio sem estar montada querida, entra logo que vou desligar o ventilador. Ai que vida sem glamour.
Maria Diocleciana terminou de tomar o café todo. Engoliu os ovos e lançou:
- Por que não Mariana? Eu poderia me chamar Mariana com tranquilidade. Ou Ana. Por que Maria Diocleciana?
- O que mata é o Diocleciana né?
- É demais. Eu tenho vontade de matar pessoas.
- Mas o seu nome é travesti mulher, pensa bem, Diocleciana é um nome que não se esquece.
- Sim, ainda mais que preciso sempre ficar repetindo. Eu nunca tenho o prazer de ser compreendida de imediato quando respondo meu nome. É sempre seguido de Han?
- É porque você não fala direito querida. Você precisa valorizar cada sílaba, dar uma chiada em algum ponto ou uma abertura entende, Dioclexxiana.
- Ora pelo amor de Deus, Dioclexxiana é muito pior.
-Então, chegamos num concenso, consulta encerrada.
- Mas isso não pode ficar assim!
- Assim como? Quer mudar de nome muda, mas vai ser um saco porque sempre vai ter dois ou mais nomes. Você não pode por exemplo mudar o nome para Ana Paula, olhando pra você ninguém acreditaria em Ana Paula, ainda se fosse Diorigenes. Laura Diorigenes seria interessante.
- Mas eu não quero mudar de nome.
- Não?
- Não.




quarta-feira, 25 de agosto de 2010

The way you make me feel

Falou tanto sobre ele que ficou intoxicada. Saiu cuspindo as feridas dele pelo chão. Lembrou dele olhando pra ela com uma cara de louco e de procurar nos olhos dele algum resquício de amor e não encontrar nada ali. Um buraco negro vazio e cheio de ódio que saía dos olhos dele. Lembrou da faca na mão dele e dos punhos machucados cobertos por um curativo. Lembrou tanto que ele esteve ali e por mais que quisesse procurar as coisas boas para contar, as coisas ruins pareciam tão fortes e tantas! Porque as coisas ruins são tão fáceis de nos marcarem, por que se potencializam tanto? Ele também comprou um presente pra ela no dia do aniversário de outra pessoa. Ele também cozinhou molho branco com macarrão. Ele também fez os desenhos do livro dela. Ele também ofereceu tanto colo e tanto amor que ela contou os seus complexos todos e se abriu com ele sobre seus defeitos. Ele comprou cds inéditos e traduziu as músicas favoritas dela. Ele era o ombro e a alegria e como pode acabar e virar uma coisa suicida e horrorosa? Gostaria de acessar a beleza do amor deles de novo, mas ficou preso no tempo quando a inocência acabou.


sábado, 7 de agosto de 2010

O exato

Nesse exato momento eu preparo o momento. Pronto! Ela canta Padam, padam, padam...no exato momento da felicidade simples faço uma oração cantada. Quando tudo vai bem quase nunca escrevo. Porque a alegria é vivida, tem que ser exaurida, mas no exato instante eu resolvi que os autores compartilharão a alegria com o mesmo poder com que compartilham a tristeza. Decidi agora mesmo e todos eles o farão. Tenho poderes etnocentricos. Você consegue sentir? O autor brinca de ser Deus. Essa frase não é minha. Eu usurpei. É do meu amigo Rafael que no exato momento faz uma prova . Eu insisto na oração cantada. Olha lá "Rappelle-toi tes amours, rappelle-toi puisque c'est ton tour 'y a pas d'raison pour qu'tu n'pleures pas avec tes souvenirs sur les bras" Os sonhos dela brilhando! Todos realizados os sonhos dela. Tenho que ir! Eu estava tão acostumada com o sofrer que sinto até a estranheza. Ouçam amigos, há momentos exatos em que tudo vai bem. Uma vez , Lisa me disse que quando alguma coisa não dava certo era porque você não estava na energia correta. Mas que quando você estava, não se sabe objetivamente como, tudo funcionava. As alegrias nunca são bem escritas como as tristezas, a não ser pelo Quintana. Despeço-me. Tenho de ir. Ouçam amigos, eu lhes desejo agora a alegria cantada. A música é curta mas eterna. Vou-me, tenho de ir.

Peripécia do dia: virar uma boneca em meia-hora.
Poesia do dia: A caneta que acertará as respostas por meio da oração que continua silenciosa após a música.

Adeus, viúva morta

Viúva morta, segue de preto cabelo escovado passa água de colônia passa batom vermelho ou violeta viúva morta, eu não te amo viúva m...