quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Observo a vida de fora.



Não se comunicava. Não pretendia interagir com os outros seres humanos. Ela poderia fechar as portas, por favor? Eu poderia me trancar no grito insano que sai da outra sala. Inumano-humano-todos-nós. Eu caminho cheio de ondas de panos coloridos. Estou muito bem trancafiada em mim. Em momentos assim gostaria de correr. A arte não deixa de deturpar nossa alma. É uma forma de mostrá-la em fragmentos. Sentia sua alma toda misturada não sabia de quê. A caneta soltava tinta. A tinta grudava em seus dedos e os deixava sujos. Ela os esfregava no nariz para que ficassem limpos. É possível. Não falava sobre nada.
Não sou uma alma boa. Não sou ninguém.

Noite, agosto 2006.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Pequeno Conto de Decepção


Podia escrever sobre ele entrando pela janela meio leso. Falar que ele entrou sem um beijo, sem um único toque, quase como se estivesse fazendo um favor. Ficou apoderado do quarto dela, ele todo de lama. Ela fechava as portas e as janelas e ele expelia pus. Estava tudo enlameado e ainda assim ela se injetou na veia para ficar lesa também. Deitou e o abraçou, mas ele era de lama. Para evitar que ele se desmanchasse ela o engoliu e morreu.
Noite fria, setembro de 2006.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Absurda (o)


Cresceu no velório. Navegou numa poça de sangue. Subiu com as baratas até o topo, nem caiu, ficou lá pulando, depois desceu intediada (o). El sabe que é com e - entediada, mas escreve errado para chatear. É capaz de fazer assim: [intediada] Hhaushaushashauaahuaha. Ri com linguagem de internet porque cansou de ter que ser. O mundo todo deveria ser.
A... mão... casou.
Isso passa, as mãos se dão e vão a segunditos pequeninitos de tempo. Agora sim, cansou a mão.
Criou um codinome porque não poderia ficar sem assinar. Ele sempre assina.

Dirty Diana.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Enfim, a coragem.

É assim, eu estou num momento de aprender a divulgar meus trabalhos,  tendo isso em vista, em 2006/2007 eu escrevi um livro que deu origem a uma peça chamada Fragmento.ponto.alma, essa peça foi minha estréia como atriz profissional, junto com meu grupo e ela me gerou  apresentações em 2008 ( Curitiba), 2009 e 2011 ( Rio de Janeiro). Agora eu vou publicar aqui o livro, são pequenos contos e longas poesias. Você pode ler e se gostar, mostrar pra quem você quiser. Tenho dito e muito beijos. Ele começa assim ó:


Fragmento.ponto.alma


Pequeno Conto do Desejo

Encostou-se a ele inteiro na porta, cada desejo do seu corpo derretendo em bolinhas de suor. Tomou ácido com a língua e depois recebeu dos lábios dele o selo da dor. Ele a conduziu delicadamente pela sala no meio dos abutres e a protegeu de longe. Ela sentiu as próprias pernas macias e escorregou pelo colo dele e os cheiros e sabores pareciam concentrar-se exatamente ali. Dentro do abraço dele, feito uma criança indefesa protegida por aquele tão louco quanto ela, finalmente um mais forte que ela. O ácido a fez ver o desejo cheio de maciez. Quando o beijo veio novamente, eles tocaram as línguas e o abismo se abriu convidativo. De olhos fechados se viu caindo em espuma grossa e fofa, mas havia um grito de dor. “Não, eu não posso”, ela disse muito mais pra si do que para ele e fugiu.

Noite de setembro-tédio, domingo parado, sem violão. 2006.



terça-feira, 12 de junho de 2012

Namorados

         Minha avó foi abandonada com 8 filhos. Ela nunca mais se deixou apaixonar por outro homem. Contam pra mim a história do dia que ela entendeu que ele não voltaria, foi uma noite em que ela ficou na calçada sozinha esperando, esperando, esperando... sentada imóvel numa cadeira com olhos vidrados no lugar de onde ele viria. Mas amanheceu e ele nunca mais voltou. Então ela entrou em casa sem dizer nada e no dia seguinte começou a viajar pra vender confecção pra sustentar os filhos e a si mesma. O que acho mais estranho sobre a minha avó é a alegria que ela mantém até hoje. Ela faz questão de ser feliz, mesmo tendo sido ferida de maneira irremediável. Digo irremediável porque ela tinha uns 30 anos quando o amor em forma de homem saiu da vida dela. E  vejo fotos, ela era linda, linda...
         Eu, por minha parte abandonei tudo pelas luzes da ribalta. Em relação a isso eu não sou solidária nem no câncer. Eu pensei quando criança que nenhum homem me amaria pois era feia e mulheres feias dançam sozinhas. Mas estranhamente, mesmo feia, eu sempre tive todos os homens que quis. Hoje eu que tenho 30 e sou minha avó em dois empregos, das 9h da manhã até as 2h da madrugada. Eu não tenho filhos. Eu tenho amigos. Eu não tenho nada, eu tenho essa alegria magoada de ser eu mesma. Eu tenho um baú imaginário de saudades. Eu não tenho família, eu faço parte de uma quadrilha. A quadrilha da Ribalta. E todos os dias quando as luzes são acesas e eu estou ali, penso: será que tem um amor por aí pra mim? Porque de amar sozinha, ah de amar sozinha já basta.
        Eu sou minha avó sentada na calçada olhando fixamente para o horizonte e olha! Olha! Ele vem, eu consigo ver lá longe a silhueta dele,  ele vem de chapéu, calça de linho, ele vem perfumado e quando me olha... a aurora brilha e cega,  nós sorrimos pois tudo, tudo está bem agora.
       


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Dois.


Duas folhas na flor
o sorriso escasso se esparramando na sopa
que era o mar
tranquilo
tranquilo
O grande vício a dois
a tranquilidade
a brisa
chuva fina pequena
tudo bem
e uma alma penada
correndo em silêncio por dentro da casa
e a poetisa, cadê?
fizeram o quê com a tua terrinha?
fizeram o quê com o teu lugar?
E esses dois?
Dois é bom
Dois conjuga/integra/alivia
Dois derrete
esquenta e esfria
Dois é o sol e a lua no céu
areia
areia
vários corações no anel
que tu me destes
era vidro
era não
quem disse que a paixão
não é sentimento
fugiu do sentimento dela
fraco demais
pra se apaixonar por ela.

sábado, 28 de abril de 2012

A frase da infância

     Era um corte, chamava-se assim, o corte, em Independência mesmo, um corte no meio da cidade, depois da praca, foi lá que ela me disse isso, foi lá que ela me tratou assim, e saí correndo porque eu gostava muito dela e em casa meu pai correu atrás:
     - O que foi? O que foi?
     E quando contei ele disse:
     - A verdade dói,  não é?  
     - Porque não gosto de gente espelcute que nem você! Não gosto de gente amostrada e é isso que você é.
         Ah, toca Raul! E ainda tenho que ouvir discussões sobre os 30 anos. Os 30 anos meu amor eu vou te dizer, é quando você pensa, ai meu Deus agora eu tenho que correr, eu tenho que usar meu cérebro, meu corpo, minha alma, ai meu Deus, meus 30 aninhos amém ( com um coro atrás, romano, sabe, romano que eu sou do teatro tá meu amor, do teatro!) e também não estou nem aí pro funk e pro forró, to aqui loira e japonesa subindo no meu salto marrom, o dia que comprei esse salto eu tava tão feliz meu bem, eu tava radiante sabe, eu brilhava a cada passo, ele foi comigo, tava lindo, lindo. Hoje não, hoje eu to mais pra outro lado, "essa cegueira seletiva tão blazê é de lascar, ainda vai te apresentar o chão! " eu to mais assim sabe meu amor, essa coisa de passos de tango, é forte, sensual e cheio de paixão, mas tem uma tristeza de pneumotorax.
       

quinta-feira, 29 de março de 2012

Poesia atroz

E agora, você me ama?
Sim, mas amo ela mais.
E agora você me ama?
Eu gosto de ti.
Os sofrimentos do Jovem Werther
I´ts complicate
like girl gone wild
hey ei ei
ai meu pulmão foi partido em dois
eu sou metade
pois eu sou esse quadro vermelho da cor do meu sangue
terão o meu sangue só no fim
Alguma lesão grave Doutor?
Você tem hipersensibilidade na garganta
você não pode cantar
cadê aquele cigarro?
you need die for me baby
E aqui é sujo?
Claro que não, mas lá é mais limpo.
Todos iguais, todos iguais, mas uns mais iguais que os outros.
Acho que se regenerou sozinho
meu filho será médico
ai coisa mais linda desse mundo
te amo
eu morreria por você
mas deu uma morrida, pelo menos uns trinta segundos.

Penélope, doravante louca imperatriz de Dêsdemona.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Burca

Bom, isso é pelo dia da mulher:
          "Me botaram uma burca  e eu não podia fazer nada, eu não podia olhar as pessoas na rua, nem mostrar meu cabelo, e eu imaginava penteados, gente louca com cabelos coloridos, e eu vendo o mundo através de véu, com dois olhinhos pequenos e infames, e eu tava feliz de não ter que ser julgada caloricamente diariamente".
          Que piada! Quem justifica essa violência com a opressão ocidental pela beleza? Prefiro isso. Prefiro ser oprimida pela beleza. Que eu me faça bela, que me queiram bela porque isso pelo menos me dá uma margem de liberdade, no sentido de vou enlouquecer botoxada ou vou envelhecer naturalmente? Estou de burca ocidental. Estou confortável agora pela primeira vez nesse dia desde que acordei. Eu e minha burca. Me deram uma missão quando eu nasci: case. Depois me cobraram por isso durante a vida. Sei que algumas pessoas sempre me cobrarão. Como me cobrarão outras coisas que talvez eu deva.  Mas eu sou a única dona do meu corpo e da minha vontade.
         Eu te roubo, eu sou uma cigana, se eu estiver com frio, levo o teu casaco. E ninguém pode me apedrejar, nem me estuprar, nem me bater, nem me ofender fundado no argumento que traí. O ser humano é um traidor. O meu país ocidental está cheio de dementes que praticam crimes diariamente contra a mulher, no interior onde a impunidade reina, nas capitais as manchetes de jornais estão repletas de exemplos bárbaros e machistas. Por mim um assassinato que corta uma mulher e joga pros cachorros devia morrer. Ter uma excessão pra pena de morte, além do caso de guerra. E eu nao jogaria o corpo dele pros cachorros não porque os bichos  não merecem comer porcaria.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Maria Diocleciana, Edileusa Cotonete e a torta de limão

Edileusa Cotonete por sua vez estava roubando uma torta quando Maria Diocleciana chegou para conversar.
- O que devo fazer?
- Não sei, vamos comer essa torta e beber.
- De quem é esta torta?
- É minha,  vamos embora daqui.
- Se é sua porque você está pendurada no muro com ela na mão?
- Porque sou louca, gosto de fazer shows com tortas nos muros das pessoas- disse isso e jogou os cabelos para trás.
Entraram na casa de Edileusa que logo ligou os ventiladores e trouxe uma faca, dois copos e cachaça.
- Bebe.
Maria Diocleciana enchia o copo e virava como se fosse água.
- Vamos ter problemas por causa dessa torta?
- Ai maldição você não veio aqui pra pedir conselho?
- Acho que vou embora. Não quero mais conselho não, já sei o que vou fazer.
- Ah é? E o que será?
- Vou embora e nunca mais verei Deodoro.
- Edileuzaaaaa! Edileuzaaaaaa!
- Estão chamando por você, ou deve ser pela torta.
- Maldição! Maldição!
- Quer que eu chame os ratos?
- Não querida eu sei me virar. Além disso tenho pavor daqueles bichos.
Foi pra janela a berrar:
- Plebeus! Plebeus! Subam e comam da minha torta de limão, subam, fartem-se.
- Vou beber mais. Não quero ver pessoas agora.
- Subam, comam a minha torta de limão plebeus!
- Você já tá é beba!
- Só vou te dizer uma coisa: come essa torta que você vai saber o que fazer.
Maria Diocleciana muito desconfiada comeu um pedaço da torta que parecia um pedaço de nuvem e esperou pela solução junto com o sabor, mas nada aconteceu e ela foi ficando agoniada e estranha por causa da textura que derretia na boca e isso lembrou Deodoro e ela foi ficando vesga e achou melhor parar.
- Essa torta tem alguma coisa Edileusa!
Edileusa Cotonete não ouvia mais nada. Berrava na janela como se fosse Evita e jogava os cabelos a cada chamado. Aos poucos os vizinhos foram subindo o que apavorou Maria Diocleciana que saiu de lá bêbada e pensando no sabor da torta sem solução.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

A historinha de amor/horror de Maria Diocleciana

Maria Diocleciana quando era moça conheceu um rapaz gaúcho chamado Deodoro Raimundo e assim que o viu achou que ele era o homem mais convencido que já tinha encontrado; acontece que de noite Deodoro ligou pra Maria perguntando se ela queria sair, que ia uma turma e coisa e tal. Maria Diocleciana aprontou-se e foi. No encontro não tinha ninguém, só Deodoro que não fez nada a noite toda e ficaram sentados num banco da praça sem fazer nada até de manhã. No dia seguinte Maria Diocleciana deciciu que esse Deodoro era um frouxo e não queria mais saber dele não.  Deodoro Raimundo por sua vez decidiu que Maria Diocleciana era uma porca que comia podrão no primeiro encontro e não queria mais nada com ela não. Ficaram amigos e quando Deodoro se encantou com outra mulher, Maria Diocleciana encantou-se com todos os homens da escola de tiro e com as mulheres também e viveu orgias e bacanais. Deodoro, resolveu então chamar Maria Diocleciana para morar com ele e mudou-se com ela e mais duas mulheres para uma casa velha no interior. Mas Maria Diocleciana não tolerava as outras mulheres. No começo até tentou, mas depois passou a tramar planos de envenenamento e a aproximar-se de ratos e fazer amizade com eles. Ela tentou de tudo para que Deodoro largasse as outras mulheres, mas nada adiantou e então ela soltou mil ratos pela casa nova e expulsou de lá Deodoro e uma das mulheres e ficou com a outra  que ela não era besta. Quando ele se foi, Maria Diocleciana não sabia como controlar seu orgulho ferido e portanto deu um tiro na perna e ficou manca. Ficou manca durante muitos anos, arrastando a perna a cada passo, até que um dia apareceu um médico estrangeiro que passou uma pomada nela e Diocleciana melhorou. Mancava ainda um pouco, mas a pomada aliviava tanto! Era fresca, geladinha, hum...! Mas uma dia acabou e o médico estrangeiro teve que ir embora para buscar mais. Maria Diocleciana sofreu terrivelmente, as dores na perna ficaram mais fortes e piores ao ponto dela não conseguir mais andar. Quando Deodoro ficou sabendo disso apareceu na casa dela, beijou as feridas, passou unguento verde, lavou Maria Diocleciana em água benta. Ela parecia até curada. Ela parecia até feliz. Deodoro acordava cedo, cuidava dela, voltava de noite, dormia com ela. Só que o médico também voltou com as pomadas. Ela não sabia o que fazer. Como não sabia, ficou paralisada vendo as coisas acontecerem. O médico, sentindo-se inútil, foi embora de vez. Deodoro de orgulho ferido arrumou logo outra mulher e desfilou com ela na frente de Maria Diocleciana. Maria Diocleciana foi procurar Edileusa Cotonete para desabafar.

Adeus, viúva morta

Viúva morta, segue de preto cabelo escovado passa água de colônia passa batom vermelho ou violeta viúva morta, eu não te amo viúva m...